Juros de obra: o que são, como calcular e quando param de ser cobrados
Entenda como os juros de obra são cobrados no imóvel na planta, veja um exemplo de 30 meses e saiba o que fazer se a construtora atrasar a entrega.
Quem compra um imóvel na planta com financiamento bancário costuma se preparar para a parcela depois das chaves. O que pega muita gente de surpresa é a cobrança que começa bem antes disso: os juros de obra, um valor mensal que sobe conforme a construção avança e não reduz em nada a dívida.
Neste guia, você vai ver como essa cobrança é calculada, como estimar o total antes de assinar, quando ela termina e o que fazer se a obra atrasar. Tudo com um exemplo em números para levar para a sua própria simulação.
O que são juros de obra e para quem você paga
Juros de obra, também chamados de taxa de evolução de obra, são os encargos cobrados pelo banco durante a construção quando o financiamento já foi contratado. O banco repassa o dinheiro à construtora em etapas, e você paga juros somente sobre o que já foi liberado.
Essa cobrança não existe em toda compra na planta. Se durante a obra você paga apenas a construtora e só financia depois da entrega, não há juros de obra com o banco nessa fase. Eles aparecem principalmente no crédito associativo, em que o contrato com o banco é assinado com a obra em andamento ou antes do início dela.
| Cobrança | Quem recebe | O que faz | Reduz a dívida? |
|---|---|---|---|
| Juros de obra | Banco | Remunera o dinheiro já liberado | Não |
| Parcelas da entrada | Construtora | Paga a parte não financiada | Sim, a dívida com a construtora |
| INCC | Construtora | Corrige o saldo devido à construtora | Não, costuma aumentá-lo |
| Parcela pós-obra | Banco | Paga juros e amortização | Sim |
Como o valor é calculado mês a mês
A conta básica é simples: saldo já liberado multiplicado pela taxa mensal do contrato. O que muda ao longo da obra é o saldo. A cada medição aprovada, o banco libera mais uma parte para a construtora, e a cobrança do mês seguinte passa a considerar esse novo valor.
Se o contrato informa uma taxa nominal anual, basta dividi-la por 12 para chegar à taxa mensal. Se a taxa informada for efetiva, essa divisão direta não vale, por isso é importante conferir qual das duas aparece no seu contrato.
O valor do boleto também pode ser maior que o resultado dessa conta. Dependendo do contrato, entram atualização pela TR, seguros MIP e DFI e tarifa de administração. Peça ao banco a composição de cada um desses itens, para saber exatamente o que está pagando.
Exemplo: quanto custam 30 meses de obra
Veja uma simulação ilustrativa com R$ 400.000 financiados, taxa nominal de 11% ao ano (cerca de 0,9167% ao mês) e obra de 30 meses. Para simplificar, consideramos cinco fases de liberação e deixamos de fora TR, seguros e tarifas.
| Meses | Saldo liberado | Juros por mês | Total da fase |
|---|---|---|---|
| 1 a 6 | R$ 40.000 | R$ 366,67 | R$ 2.200 |
| 7 a 12 | R$ 120.000 | R$ 1.100,00 | R$ 6.600 |
| 13 a 18 | R$ 200.000 | R$ 1.833,33 | R$ 11.000 |
| 19 a 24 | R$ 300.000 | R$ 2.750,00 | R$ 16.500 |
| 25 a 30 | R$ 400.000 | R$ 3.666,67 | R$ 22.000 |
| Total | — | — | R$ 58.300 |
Ao fim da obra, a pessoa teria pago R$ 58.300 e ainda deveria os mesmos R$ 400.000. Depois disso, em um financiamento SAC de 360 meses com a mesma taxa, a primeira parcela seria de cerca de R$ 4.777,78: R$ 1.111,11 de amortização e R$ 3.666,67 de juros.
O cronograma real pode ser bem diferente deste. Uma obra que libera muito dinheiro logo no início gera mais juros do que outra que concentra as liberações no fim, mesmo com a mesma taxa e o mesmo prazo. Por isso, a simulação só fica confiável com o cronograma do seu empreendimento em mãos.
Como planejar o orçamento durante a obra
O ponto mais delicado é a soma das cobranças. Os juros de obra costumam correr ao mesmo tempo que as parcelas da entrada pagas à construtora e, muitas vezes, que o aluguel de quem ainda não tem onde morar. Antes de assinar, faça estas contas:
- Peça ao banco ou à construtora o cronograma previsto de liberações.
- Calcule os juros de cada fase com a taxa mensal do seu contrato.
- Acrescente TR, seguros e tarifas informados na proposta.
- Some as parcelas da entrada, corrigidas pelo INCC, e o aluguel, se houver.
- Compare o total do mês mais caro com a sua renda, não apenas a média do período.
- Inclua na conta pelo menos seis meses extras de cobrança no valor mais alto, como margem para atrasos.
No exemplo acima, cada mês adicional com todo o valor liberado custa R$ 3.666,67. Seis meses a mais representariam R$ 22.000 em juros, sem contar as demais despesas do período.
Quando os juros de obra terminam
A resposta está no contrato, e não necessariamente na data em que você recebe as chaves. A cobrança termina quando o financiamento passa formalmente para a fase de amortização, o que costuma depender da conclusão da obra e de etapas como habite-se, legalização e registro.
Por isso, leia a cláusula que define esse marco e pergunte ao banco quais documentos precisam ser concluídos para a mudança de fase. Também vale guardar os boletos e acompanhar as medições, porque o percentual liberado nem sempre corresponde ao avanço que você vê no canteiro.
O que muda se a obra atrasar
A Lei 4.591/64, em seu artigo 43-A, permite que o incorporador entregue o imóvel até 180 dias corridos depois da data prevista, desde que essa tolerância esteja expressa de forma clara e destacada no contrato. Passado esse período, sem culpa do comprador, ele pode pedir a rescisão com devolução integral dos valores pagos e multa, ou manter o contrato e receber indenização de 1% ao mês sobre o valor pago ao incorporador.
Sobre os juros de obra, a referência é o Tema 996 do STJ (REsp 1.729.593/SP): é ilícito cobrar esse encargo após o prazo contratual de entrega, já incluída a tolerância. O precedente, porém, foi firmado para contratos do Minha Casa Minha Vida. Em outras modalidades, é preciso analisar o contrato e a situação concreta.
- Guarde o contrato, a data prometida e a cláusula de tolerância.
- Separe nos boletos o que é juros de obra, seguro, tarifa e amortização, pois nem tudo costuma entrar em um pedido de devolução.
- Registre por escrito cada contato com a construtora e o banco.
- Procure um advogado ou a Defensoria Pública para avaliar o seu caso antes de suspender qualquer pagamento.
Deixar de pagar por conta própria pode gerar atraso no financiamento, mesmo quando a cobrança é discutível. O caminho mais seguro é questionar o valor formalmente enquanto busca orientação.
Como reduzir o peso dos juros de obra
Não há como eliminar essa cobrança dentro do crédito associativo, mas algumas decisões podem diminuir o impacto no orçamento:
- Compare a compra na planta com a de um imóvel pronto: some juros de obra, INCC e aluguel antes de concluir que a planta é mais barata.
- Negocie a taxa e o CET: como o juro incide sobre o saldo liberado, uma taxa menor reduz a cobrança desde a primeira medição.
- Aumente a entrada, se fizer sentido: um saldo financiado menor também reduz os juros, mas não comprometa a sua reserva de emergência.
- Pergunte sobre a época da contratação: em alguns empreendimentos, é possível entrar no financiamento em fase mais avançada da obra.
Com a Selic em 13,75% ao ano após a decisão do Copom de setembro de 2026 e nova reunião marcada para 3 e 4 de novembro, vale refazer as contas com a taxa da proposta atual, sem usar simulações antigas.
Para entender a outra correção que pesa nessa fase, veja o nosso guia sobre o INCC no imóvel na planta. E, se ainda está decidindo o tipo de compra, leia a comparação entre imóvel na planta ou pronto.
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Perguntas frequentes sobre juros de obra
Juros de obra diminuem o saldo devedor?
Em geral, não. Nessa fase, a cobrança remunera o dinheiro já liberado, sem amortizar a dívida. A redução do saldo começa quando o contrato entra na fase de amortização.
Juros de obra e INCC são a mesma coisa?
Não. Os juros de obra são pagos ao banco sobre o valor liberado. O INCC é um índice que corrige o saldo devido à construtora. Em setembro de 2026, o INCC-M acumulava 6,61% em 12 meses, segundo a FGV.
Quem compra direto com a construtora paga juros de obra?
Se não há financiamento bancário durante a construção, não há juros de obra com o banco nessa fase. Ainda assim, as parcelas com a construtora podem ser corrigidas pelo INCC, conforme o contrato.
Posso usar o FGTS para pagar juros de obra?
Não conte com isso sem confirmar. As regras de uso do FGTS dependem da modalidade e da fase do contrato. Pergunte ao banco, por escrito, antes de incluir o saldo no planejamento desta etapa.
A construtora atrasou. Tenho direito à devolução dos juros de obra?
Nos contratos do Minha Casa Minha Vida, o Tema 996 do STJ considera ilícita a cobrança após o prazo de entrega com tolerância. Em outros contratos, a resposta depende do caso. Consulte um advogado com os seus documentos.